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Existia um muro tão alto que pensei que jamais seria possível derrubá-lo ou escalá-lo. Me vesti com milhares de armaduras e desculpas prontas na ponta da língua para me permitir fugir de toda e qualquer situação que desse qualquer vestígio de cruzar o caminho entre o primeiro e o segundo encontro.
Foram anos me preparando para a The Great War, dizendo para mim mesma no espelho que não existe mais amor, que não existe emoção, que tudo o que eu vejo em filmes e leio em livros não passa de uma grande alucinação de roteiristas que desejam muito, com todas as forças, viver qualquer coisa que os deixe molhar os pés na beirada de uma história de amor.
Eu fugi de qualquer possibilidade que me fizesse sentir qualquer coisa ou que me permitisse criar expectativas com um possível futuro. Joguei a culpa em todos os traumas de ex’s amores, me entendi comigo mesma e aceitei que depois daquele fatídico 18 de setembro, eu viveria depositando amor em outras caixinhas. Eu viveria para trabalhar e tudo bem não sentir nada, já que esse também era um dos efeitos colaterais do tanto de tarja preta que eu tenho tomado desde 2021.
Só que a vida tem dessas né, ela adora pregar peças e deve adorar ver a gente com cara de palhaça. Despretensiosamente, muito sem querer, esbarrei em uma pessoa completamente diferente de mim nos aplicativos da vida. Uma área profissional completamente diferente e a recorrente constatação “como somos diferentes” não foi alerta suficiente para eu fincar os pés no chão.
Ele é diurno e eu noturna. Ele é de biológicas e eu totalmente de humanas. Eu de textos longos e detalhados, ele de palavras curtas e abreviadas. Mas em algum ponto nesse meio do caminho a gente se encontrava. E por mais que eu não quisesse aceitar, alguma coisa dizia que poderia dar certo. Então eu fui.
Mesmo tentando pisar em ovos, não querendo aceitar todas as possibilidades de um amor tranquilo e leve que eu nem sabia que existia, fui me desarmando e me permitindo viver momentos únicos -- e um tanto quanto irresponsáveis, sem pensar duas vezes. Fui feliz até o momento que a dura realidade bateu na minha porta e eu prontamente abri. Como quem espera uma encomenda desejada, abri a porta na expectativa de ser uma entrega dos correios. Antes fosse.
Junto com o banho de água fria e pedras de gelo, vieram as inseguranças, as incertezas, a indiferença e todas as red flags que sempre estiveram escancaradas na minha cara e eu, em total estado de negação, não quis enxergar. Achei que esse poderia ser um amor desses que acalma, tranquiliza e faz firmar bases sólidas, mas assim como um dos mais dançantes hits do molejão, eu caí numa cilada.
Processar a dor de viver um relacionamento sem rótulo é mais difícil que a dor de um término de longa data. Afinal, são inúmeras possibilidades, são muitos “e se’s” e o teor de expectativa inconsciente que um relacionamento de meses guardam são capazes de enaltecer, com tamanha rapidez, um coração endurecido feito cimento E é aí que o estrago acontece, pois quanto mais alto o vôo, maior a queda. Como bem diz João Vitor, é desesperador perceber que alguém te joga para o alto só para te ver quebrar. E não estou dizendo que foi proposital. Só aconteceu.
Só que o acumulado de decepções faz com que seja cada vez mais difícil se reerguer. Todos esses pedacinhos jogados ao chão são ainda mais difíceis de recuperar. Não tem fórmula certa. Não existe cola nem um jeito certo de arrumar de novo esse quebra-cabeças que é o coração de uma pessoa sensível. Não tem como consertar um coração em pedacinhos que já operava com falhas e mil buraquinhos.
Dói.
Ver o vento levando embora todas as expectativas e tudo o que poderia ter sido, todos os finais felizes imagináveis e todas as promessas não realizadas machuca mais do que qualquer faca afiada enfiada no peito. Ou quaisquer palavras duras vomitadas em poucos minutos.
Dói entender que ainda sou um ser humano, que ainda tenho expectativas, que ainda tenho sonhos e que ainda tenho desejo de realizar coisas no âmbito romântico. Mas é que em tempos de relacionamentos líquidos, lances casuais, cardápios de ifood e indisponibilidade emocional, é como se eu estivesse verdadeiramente buscando uma agulha num palheiro. A sensação é de que estou colocando todas as minhas forças para correr atrás uma coquinha gelada em meio ao deserto.
Só que de tudo, aprendi com meus avós que o amor não te deixa dúvidas. Ele não te dá crise de ansiedade, não te faz perder o sono, não te provoca crise de choro, não te faz andar em corda bamba nem temer a reação de alguém. O amor é calmaria, é tranquilidade, é silêncio confortável, cuidado, respeito, atenção, parceria. É mais do que esperar o bom dia que nunca chega, é mais do que querer um carinho que não é demonstrado.
A gente não deu certo pelas milhares de expectativas que eu criei. Por mais que todas as peças tenham encaixado e alguns muitos requisitos básicos da minha listinha tivessem dado check, nosso timing foi errado.
Se eu posso tirar alguma lição disso tudo, é que eu ainda sou capaz de amar. Eu ainda consigo pensar no amor romântico como um campo florido, em danças na chuva, em demonstrações cafonas de afeto em público. Por muito tempo achei que essas gavetas tinham sido destruídas. Foi legal descobrir que é só uma parte de mim que permanece escondida e trancafiada a sete chaves.
Ainda assim, obrigada por me devolver o brilho no olho, o gosto por viver coisas novas, o entusiasmo de conhecer novos universos e a beleza de entender que existe vida além do meu mundinho. Obrigada pelos frames de comédia romântica que vão ficar guardados na minha memória e por todas as palavras não ditas que eu gostaria de ter escutado, mas que talvez nem eu nem você estivéssemos prontos para falar ou ouvi-las.
Obrigada por ressignificar viagens curtas, por enaltecer o tempo de qualidade e me fazer perceber que escuta ativa é um ponto muito importante para mim. Obrigada por me fazer perceber que tem coisas sobre mim que não vão mudar nunca e que eu sempre vou ter uma parte adolescente, quer isso agrade ou perturbe alguém. Essa sou eu na minha mais pura e intensa verdade.
Obrigada por me permitir conhecer um mundo novo, por compartilhar conhecimentos aleatórios que provavelmente nunca vou ter contato de novo e por me fazer entender que relacionamentos podem e devem ser leves e divertidos. E que mesmo com essas memórias, as relações duram o tempo que elas precisam durar. Nem mais, nem menos. Apenas o tempo exato para se tornarem inesquecíveis.
Obrigada por todas as conversas e todas as trocas. Você provavelmente nunca saberia que foi importante para me ajudar a reencontrar uma Renata que eu nem sabia que ainda existia dentro de mim. Espero que seu caminho continue sendo de evolução e desenvolvimento e que os erros que cometemos se tornem aprendizados para não os repetirmos no futuro com quem quer que cruze nosso caminho. E por último, mas não menos importante:

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