Não é que eu sinta sua falta

08 maio, 2023

Imagem by  Etienne Boulanger. Reprodução/Unsplash.

Era fácil quando eu costumava ter um abraço reconfortante em momentos como esse. Dois braços um pouco maiores que os meus que faziam ser fácil me derramar em lágrimas como o rio segue seu curso em dias de chuva. Era reconfortante ter alguém a quem abraçar e me sentir segura, nem que fosse por apenas cinco minutos. Um abraço que por muitos anos foi o meu lar. 

Agora, além de não ter outros braços além dos meus, sigo tentando buscar conforto nas milhares de almofadas recheadas de espuma e encapadas com os tecidos macios que encontrei no armarinho. Nas palavras certeiras e tão sábias ditadas por Ellen Pompeo a cada abertura ou encerramento de um novo episódio de Grey's Anatomy. Nas encorpadas camadas de recheio de bolo de chocolate daquela doceria com nome francês que eu conheci esses dias e me abraçou tão gentilmente nesse momento de fragilidade. 

É estranho pensar que seu abraço significava tanta coisa. Eu sei, não foi você quem quis ir embora. Eu que te expulsei do meu peito no ímpeto de encontrar a superfície e conseguir chegar na areia com minhas próprias pernas. Agora eu entendo quando João Vitor disse que a praia era linda contigo, mas praia vazia é boa também. 

Sendo bem honesta, não sinto sua falta. Na verdade, acho que concordo com todas as vozes que falam aos quatro ventos que a melhor decisão de nossas vidas foi eternizar nossos caminhos em nossas histórias sem criar inimizade. Pacificidade nunca foi o nosso melhor ponto mas acho que a essa altura estamos conseguindo seguir bem. É exatamente como Pedro canta “parece que eu renasci, mas de amor eu não morri”. E não morri mesmo. 

É que quando coloco a cabeça no travesseiro, o que me bate é a falta de uma escuta ativa para ouvir passo a passo de como foi o meu dia. Não é você, é a ideia de companhia para momentos de silêncio e descanso que me seduz. É a quietude das tardes de domingo que nossos corpos deitavam lado a lado enquanto cada um rolava infinitamente as timelines em seus próprios smartphones. É a ideia de que eu não estou sozinha, figurativa e literalmente, e de que alguém no mundo vai sentir minha falta se um dia eu errar o caminho da volta para casa e for parar em outro lugar desconhecido. É o conforto do pensamento aleatório que toma conta da narrativa do meu monólogo de que eu não sou 100% minha responsabilidade para sempre, tem alguém para me ajudar.

Se eu pensar direito, Grey’s Anatomy tem sido um grande programa para preencher todas as esquinas vazias que hoje preenchem minha vida. De alguma forma, eu sempre vou ter esses personagens quando eu precisar de algum conselho. Ellis Grey sempre estará lá no quinto episódio da segunda temporada dizendo que “o carrossel nunca para de girar”. As palavras de Shonda Rhimes sempre estarão eternizadas na minha mente (e futuramente na minha pele).

Reorganizar a rota da minha vida e entender que eu, finalmente, voltei para mim tem sido uma mistura de sentimentos. As vezes é divertido ver que tenho todo um alfabeto de oportunidades para testar, quebrar a cara e começar de novo. Mas em alguns momentos dói perceber que essa é uma jornada única e, por vezes, solitária. Era lindo ter alguém para dividir as piadas, as angústias, os sorrisos e os momentos de tédio. Reaprender a fazer tudo sozinha me dá a sensação de que estou assumindo a direção do volante e que nunca mais vou conseguir dividir a condução. Metaforicamente, me visto de cheerleader e espero que esse seja só o intervalo do jogo. Não o nosso. O meu comigo mesma. Afinal, cê sabe. Não é que eu sinta sua falta. 

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