Nós não temos controle

18 julho, 2020

Lá em março, lembro de olhar para o que seriam duas semanas de isolamento, com o mesmo olhar que uma boa parcela da população: de esse um tempo magicamente nos dado para repensar, desacelerar e nos reinventar. Imaginávamos que em duas semanas o caos acabaria, que não chegaríamos no nível da Itália, que tudo voltaria ao normal e o Brasil ia sair bem (e rápido) disso tudo. Risos longos.

imagem @cristina_gottardi
De lá pra cá, vivemos dias curtos acompanhados de noites longas, má alimentação, perda da rotina, falta de horários e noção de tempo, pouco ou nenhum convívio social, pouca exposição ao sol, álcool gel o tempo todo e hidratante de mãos em seguida… Estamos trancafiados dentro de nossas casas há, pelo menos, quatro meses. Foi lindo pensar que rapidamente nos livraríamos do coronga (sim, pois old que já estamos mais que migos). Infelizmente, aqui no futuro, essa quarentena está durando muito mais que o esperado – e ainda não temos previsão do fim.

Eis que no meio desse turbilhão de coisas e acontecimentos, fiquei desempregada. Agora faço parte da estatística de mais de 12 milhões de pessoas que não possuem emprego no país. Mesmo depois de um mês, ainda é estranho lembrar disso. Parece que estou presa em loop num final de semana eterno: hoje é sábado, amanhã é domingo. Depois é sábado de novo e domingo de novo. E por aí vai.

Quando assisti Valéria, há algumas semanas atrás, e escrevi sobre os desafios de ser um jovem adulto no mundo contemporâneo, não imaginei que em pouco tempo viveria numa realidade em que minha vida profissional seria como a de Valéria, a personagem principal: desempregada, com a vida toda em desordem, bloqueio criativo constante e grande desejo de viver do seu sonho. No entanto, e sabendo da real necessidade que o dinheiro tem na vida, precisa a aceitar o emprego que estiver aparecendo para pagar as contas.

A não ser que você seja herdeiro do Tio Patinhas ou do Zuckerberg, ter uma ocupação que dê renda é algo de extrema importância. Mas como lidar com o sentimento de ‘rejeição’ provocado por um desligamento repentino?

Revisitando alguns de meus textos antigos, me surpreendi ao ler que essa dificuldade de entender e lidar com rejeições é normal ao ser humano. Lá em 2017 eu já escrevia sobre como nós não lidamos bem com partidas. A gente sabe, desde sempre que estamos sujeitos a isso a todo o tempo, e mesmo assim, nunca sabemos como lidar.

Mas porque a gente precisa o tempo todo pertencer a algum lugar?

Nesse artigo para o superela, a Maki fala sobre a rejeição. Não estamos preparados para lidar com a sensação de não fazer mais parte de um nicho e isso é um traço antigo que está em nosso código genético – desde a época Idade das Pedras, enfim. É um processo delicado porém normal da vida. Vai acontecer com todo mundo.

Assim como é difícil passar pelos primeiros dias de um término de relacionamento, os primeiros dias depois de um desligamento também são difíceis. Poxa, você dedicou seu tempo e conhecimento a uma empresa e esse relacionamento profissional acabou. É normal entrar em choque. E nesse momento de mundo, administrar o luto da perda do emprego com todas essas restrições de isolamento pode ser ainda mais intenso. Mas passa.

O caminho mais fácil para superar esse término é aceitar que você fez o que pôde e que deu o seu melhor. E que nem sempre o nosso melhor é suficiente para o outro. Ponto.

Estamos sempre buscando por segurança, por algo que nos faça sentir seguros pra fugir de frustrações. E aí num momento desses as coisas podem parecer o fim do mundo. Só que na real é como dizem em Dark: ‘o fim é o começo’. Esse fim é o começo de um novo ciclo. O que assusta é não ter controle. Mas de fato, a gente não tem controle. ♥

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